sábado, 9 de agosto de 2014

AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM NA ESCOLA E A QUESTÃO DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

   AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM NA ESCOLA E A QUESTÃO DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

                                                                                                                     Cipriano Carlos Luckesi

                                       1. A questão das representações sociais 

Entendo que as representações sociais são modos inconscientes de compreender um 
determinado fenômeno ou uma determinada prática existencial, individual ou coletiva, que se 
expressam por meio de falas cotidianas, crenças, provérbios, modos de agir, que podem estar 
vinculados ao passado, ao presente ou ao futuro. São crenças ou práticas que, por si e 
aparentemente, não têm razão de ser, mas que se dão, se realizam e permanecem como um 
padrão de conduta dos indivíduos e/ou de coletividades, sem que se tenha de dar justificativas 
de por que elas são como são. Em síntese, são crenças inconscientes que se manifestam nas 
falas, nos chistes, nos discursos, nas piadas e, especialmente, na ação cotidiana. 
No que segue, tendo em vista dar fundamentos à compreensão do conceito de 
representações sociais que aqui utilizo, expressa no parágrafo anterior, servir-me-ei 
livremente (e, por isso, poderei estar cometendo ´gafes`) de diversos autores, sinalizando 
como eles podem nos dar suporte para compreendermos e utilizarmos esse conceito na 
abordagem do nosso cotidiano. 
Freud estudou esses fenômenos como expressões de conteúdos recalcados no 
inconsciente de cada individuo ou como padrões psicoculturais assimilados como corretos e 
armazenados numa função da psique humana denominada superego3
. Tanto os conteúdos do 
inconsciente recalcado quanto os do superego atuam automaticamente sobre nossas 
expressões cotidianas, seja pela fala, seja pela ação. Por exemplo, nossas piadas sobre as 
mulheres, os portugueses, a sexualidade revelam, na quase totalidade das vezes, nossos pré-
conceitos relativos a esses seres humanos, ou a esses fenômenos. São pré-conceitos cuja 
origem sequer conseguimos identificar - rimos das piadas e pronto, não nos damos conta de 
sua perversidade. Elas expressam representações sociais inconscientes que temos sobre os 
conteúdos de que tratam. No entanto, os conteúdos do superego também produzem
representações sociais, quase sempre com algum caráter moralista, impositivo, tais como: 
nosso modo herdado, imposto de fora, de nos relacionarmos com a autoridade, com a religião, 
com a sexualidade. O superego define a forma ´correta` de agir nas mais variadas 
circunstâncias. Esses conteúdos foram herdados - da família, da cultura regional, de padrões 
religiosos confessionais - e entranharam-se num modo inconsciente de agir, todavia não são 
recalcados, e sim superpostos ao modo de ser do sujeito. Assim, podemos dizer que o 
superego é uma superposição cultural proveniente das heranças morais e ritualísticas impostas 
ao sujeito, produzindo um modo automático de agir. 
Wilhelm Reich (1896-1957), psiquiatra alemão, discípulo e, posteriormente, dissidente 
de Freud, compreendeu que as experiências psíquicas, das quais falava seu mestre, davam-se 
no corpo, vale dizer, as heranças passadas, fossem elas do inconsciente recalcado, do 
superego ou do ego (como administrador das relações, as mais equilibradas possíveis entre o 
interior e o exterior do individuo, entre o interior [id] e o mundo exterior, entre princípio do 
prazer e o princípio da realidade), manifestavam-se no corpo, pelas denominadas couraças 
musculares4
. Ou seja, cada um de nós manifesta padrões corporais que sintetizam nossa 
história de vida congelada, como diz Reich. Esses padrões revelam as crenças mais íntimas e 
profundas que temos, por estarem marcadas em nosso corpo, como cicatrizes do nosso 
caminhar pela vida, de nossas interações, de nossas heranças e crenças, adquiridas em nossas 
experiência pessoais ou em decorrência de nossas heranças familiares e socioculturais. Tudo 
isso que se expressa em nosso corpo também dá forma a nossa ação, sem que prestemos 
atenção a ela. David Boadella, estudioso e admirador dos estudos de Reich5
, nos diz que é 
impossível o ser humano não se comunicar: basta estar presente que está se comunicando, seja 
pela configuração do seu corpo, pela postura, pelos gestos ou pela fala; enfim, pelo estar 
presente. Stanley Keleman, pesquisador norte-americano que, hoje, vive na Califórnia, USA, 
e que criou uma área de conhecimentos chamada Psicologia Formativa, escreve um livro cujo 
título é Seu corpo fala de sua mente6
, ou seja, nosso corpo expressa nossas crenças, foi 
forjado por elas. Em síntese, quero dizer que nosso corpo revela nossas representações 
sociais; basta saber lê-las. 
No cotidiano, usamos muitas metáforas com as quais expressamos nossos estados de 
ser, que são expressões do nosso inconsciente fixadas em nosso corpo. Assim, para expressar 
um estado de não agüentar mais, dizemos “estou com um peso nas costas”; para dizer que não 
conseguimos expressar alguma coisa, “estou com um nó na garganta”; para dizer que estamos 
ansiosos, “tenho uma pedra no estômago”; para demonstrar que estamos sentindo que uma 
situação qualquer não está bem, dizemos “isto está me cheirando mal”, e assim por diante. De 
fato, nada disso é real; são expressões metafóricas de experiências que estão, profunda e 
inconscientemente, arraigadas em nosso corpo. 
Carl Gustav Jung, excepcional pesquisador da alma humana, revela que muitos 
padrões de condutas e crenças que possuímos provêm do inconsciente coletivo.
 Este é constituído de heranças socioculturais e históricas, que assumimos e praticamos sem ao 
menos saber de onde vieram e, muitas vezes, qual o seu real sentido. Jung trabalha com 
elementos simbólicos profundos das múltiplas e ricas experiências sagradas, religiosas e 
culturais da humanidade; todavia, para nosso uso neste texto, podemos nos ater ao prosaico, à 
nossa herança cotidiana. Temos crenças e repetimo-las, sem que saibamos seu significado 
originário, tais como: “passar por debaixo de uma escada dá azar”; “chupar manga e tomar 
leite faz mal”; “treze de agosto é dia do azar”; “sapato emborcado, pai morre”; “usar cueca ou 
calcinha pelo avesso dá proteção”. De onde vieram essas crenças, quando se iniciaram, quais 
são seus fundamentos? Até mesmo em famílias que nunca se utilizaram dessas crenças, 
existem pessoas que respeitam esses valores - como elas assimilaram esses padrões? Na 
compreensão de Jung (e eu concordo plenamente com ele), elas estão profunda e intimamente 
fixadas em nosso inconsciente coletivo, em nossas heranças - elas são nossas representações 
sociais. 
Por outro lado, sociólogos como Emile Durkeim, cientistas políticos como Karl Marx, 
antropólogos como Margaret Mead, entre muitos outros, nos ensinam que tanto em 
sociedades complexas quanto em sociedades simples padrões predominantes de conduta são 
assumidos, seja em função de forças materiais ou de forças culturais atuantes; padrões estes 
que, apesar de serem criados e recriados pelo ser humano, são praticados como se fossem 
´naturais`, como se pertencessem à própria natureza do ser humano. Os padrões culturais 
coletivos de uma determinada sociedade são tão consistentes e fortes que imprimem sobre 
cada um de seus membros determinadas maneiras de compreender e de agir na vida. 
Evidentemente, não configuram padrões monolíticos, que não admitem nenhuma 
transformação dialética; existem, sim, modificações, embora lentas. Esses padrões de conduta 
vêm de fora do sujeito, são introjetados e, com o tempo, passam a ser, sem nenhum 
questionamento, os próprios padrões de conduta dos membros da referida sociedade, cuja 
origem se desconhece, mas que permanecem vigentes. 
Por último, quero mencionar os estudos do biólogo inglês Rupertet Sheldrake sobre os 
campos mórficos que nos constituem, por meio de um processo de interação inconsciente 
com eles. Campos são regiões imateriais de influência, que já foram estudados pela Física e 
pela Biologia. Constituem também regiões imateriais de influência, que têm por suporte a 
ambiência de nossas heranças, produzindo padrões de conduta, usualmente repetitivos. 
Campos mórficos são campos organizadores de padrões de conduta e modos de ser, e atuam 
por uma ação a distância, sem os serviços de recursos materiais que façam a mediação. 
Representam um tipo de memória coletiva de um grupo, que molda cada individuo-membro, 
para a qual cada um contribui exercendo influências sobre membros futuros do mesmo grupo. 
A assimilação da herança viria por ressonância mórfica, ou seja, as formas do passado 
ressoam em nós, de tal forma que as assimilamos inconscientemente. Os membros anteriores 
de uma sociedade, enquanto agem, formam um campo que atua sobre todos. Poderíamos 
pensar que o passado exerce uma pressão sobre o presente e que está potencialmente presente 
em todos os lugares. Influências mórficas do passado se fazem presentes em organismos 
similares subseqüentes. Padrões de conduta se fazem presentes em todos os indivíduos 
daquela espécie por um processo de ressonância mórfica, e quantos mais sejam os indivíduos 
que pratiquem um determinado padrão de conduta, mais força terá esse padrão sobre as 
heranças futuras. Ao praticarmos rituais do passado, entramos em ressonância com as forças 
das comunidades que os praticaram. Sem nos darmos conta, estamos sob o campo de 
ressonância dessas forças e repetimos padrões de conduta: o campo mórfico nos configura. 
Todavia, importa observar que os campos mórficos não são monolíticos. Eles tiveram 
um início, que, usualmente, não sabemos precisar; suas origens perdem-se no tempo e na 
amplitude do espaço; contudo também sofrem modificações com as múltiplas experiências 
dos que os acessam e vivenciam suas determinações. Tais modificações atuarão sobre as 
gerações futuras que agirão e reagirão dialeticamente sob sua influência. Assim, padrões 
mórficos de conduta fazem sentido no contexto das representações sociais que vivenciamos, 
na medida em que nos configuram, sem que tenhamos consciência deles. 
Existem outras abordagens teóricas, de autores já consagrados, que poderiam ser úteis 
para compreendermos o significado de ´representações sociais`. Por exemplo, podemos nos 
lembrar do conceito de habitus em Pierre Bourdieu10, ou de ´senso comum` em Antonio 
Gramsci. E por que não nos lembrarmos também do velho René Descartes que nos disse que 
os conhecimentos provenientes dos sentidos ou da cultura comum dos povos nos enganam? 
Ou ainda de Francis Bacon, com sua teoria dos ´ídolos`, que obscurecem nossa consciência 
ao nos confrontarmos com a realidade na investigação científica? Certamente esses autores 
nem mesmo sonharam que, um dia, suas abordagens teóricas poderiam servir de suporte para 
compreender o conceito de representação social, o que não nos impede de lê-los com esse 
olhar. 
Em síntese, tendo por base essas considerações teóricas, quero dizer que compreendo 
´representações sociais` como padrões inconscientes de conduta, que formam nosso modo ser, 
agir e pensar sobre determinados fenômenos ou experiências da vida prática. Esse modo de 
ser refere-se tanto a um padrão com uma configuração predominante do passado como àquele 
que se configura numa articulação dialética entre os elementos do passado e os do presente.
Em todo caso, assimilados do passado, ou de padrões inconscientes de conduta, originários da 
dialética passado-presente, na perspectiva do futuro.

                              2. As representações sociais dos professores (as) sobre avaliação da aprendizagem 

Servindo-nos do arcabouço teórico comentado, são vários os aspectos em que 
professores e professoras repetem modelos inconscientes de agir na prática da avaliação da 
aprendizagem escolar. Para provocar uma reflexão, vamos sinalizar alguns, entre muitos 
outros, nos quais padrões inconscientes de conduta atuam fortemente, de modo automático. 
O primeiro deles tem a ver com o equívoco de denominar sua prática de ´avaliação`, 
quando o que se faz é exercitar ´exames`. Professores, professoras, escolas, sistemas de ensino 
dizem que estão praticando avaliação – assim, existem dias de avaliação, práticas de 
avaliação, sistemas de avaliação... -, porém, efetivamente, são dias de exames, práticas de 
exames, sistemas de exames, ou seja, somos traídos por hábitos que já passaram para nosso 
inconsciente e atuamos automaticamente, sem nos perguntarmos sobre o verdadeiro sentido 
daquilo que estamos fazendo. Inconscientemente, ´examinamos`, porém dizemos que 
´avaliamos`. 
Avaliar é o ato de diagnosticar uma experiência, tendo em vista reorientá-la para 
produzir o melhor resultado possível; por isso, não é classificatória nem seletiva, ao contrário, 
é diagnóstica e inclusiva. O ato de examinar, por outro lado, é classificatório e seletivo e, por 
isso mesmo, excludente, já que não se destina à construção do melhor resultado possível; tem 
a ver, sim, com a classificação estática do que é examinado. O ato de avaliar tem seu foco na 
construção dos melhores resultados possíveis, enquanto o ato de examinar está centrado no 
julgamento de aprovação ou reprovação. Por suas características e modos de ser, são atos 
praticamente opostos; no entanto, professores e professoras, em sua prática escolar cotidiana, 
não fazem essa distinção e, deste modo, praticam exames como se estivessem praticando 
avaliação. 
Aqui se manifesta uma ação regida por uma representação social que tem fontes 
históricas, aparentemente perdidas no tempo, mas que são datadas. O modelo de exames 
escolares hoje praticados, foi sistematizado no decorrer do século XVI, com o nascimento da 
escola moderna, caracterizada pelo ensino simultâneo, em que um professor sozinho ensina, 
ao mesmo tempo, a muitos alunos. A sistematização das pedagogias produzidas pelos 
católicos (Companhia de Jesus11) e pelos protestantes (John Amós Comênio12) deram forma 
aos atuais exames escolares. Nesses quatrocentos anos, nós educadores nem nos perguntamos 
se essa é a melhor forma de acompanhar e orientar o aprendizado dos nossos alunos; 
simplesmente, exercitamos essa prática. Hoje, de forma automática, por herança histórica, 
examinamos, sem verdadeiramente tomar consciência do que fazemos. A essa prática damos 
o nome de avaliação. 
Para, efetivamente, trabalharmos com avaliação, necessitamos criar um novo padrão 
de conduta, consciente - o padrão da avaliação. É preciso romper com o campo mórfico 
estabelecido e herdado, abrindo espaço a uma verdadeira experiência de avaliação, liberta do 
campo mórfico de forças dessa representação social. 
Um segundo aspecto dessa discussão, que se transformou numa representação social 
de professores e professoras, nesse campo de prática escolar, é tomar a nota como avaliação. 
É comum ouvir expressões, tais como: “Na avaliação, meus alunos não foram muito bem; em 
média, obtiveram notas entre 5 e 6”. As notas cinco e seis, em si, não têm nada a ver com 
avaliação, mas com registro de resultados em documentos oficiais. Ninguém duvida de que haja necessidade de um registro da passagem de um aluno por determinada escola, com a 
respectiva qualidade de sua aprendizagem. Todavia, esse registro não compõe a avaliação. 
Avaliação é diagnóstico que pode ser registrado em forma de nota, mas nota não é avaliação. 
No entanto, na prática escolar cotidiana e corriqueira, ela é tomada como avaliação, quando, 
de fato, não representam a avaliação da aprendizagem em si, mas tão somente o registro da 
experiência de aprendizagem do aluno. 
O uso do conceito e da prática de ´notas` na escola como equivalente de avaliação é 
outro ponto de representação social dos educadores no contexto do tema avaliação. A nota 
esconde nela mesma o seu verdadeiro significado, que não vem a tona num primeiro 
momento, em razão de nosso comprometimento com o significado costumeiro de que nota e 
avaliação são conceitos que se equivalem, quando, de fato, isto não acontece. 

Um terceiro aspecto refere-se à frase que, por vezes, ouvimos de professores e 
professoras: “na avaliação, eu dei uma nova oportunidade aos meus alunos”. Num processo de 
avaliação, inexiste a possibilidade de “dar uma nova oportunidade”, mas, sim, um processo 
contínuo de orientação e reorientação da aprendizagem, para obter-se o melhor resultado 
possível. A expressão “dar nova oportunidade ao aluno” significa que o educador já julgou 
classificatoriamente o aluno como reprovado; contudo, para não se dizer que ele não teve uma 
nova chance de ser aprovado, concede-lhe nova oportunidade. Em avaliação, não se concede 
nova oportunidade a ninguém, acompanha-se construtivamente o aluno em seu processo de 
aprendizagem. Dar oportunidade é um ato de quem tem autoridade para fazer isso; 
diagnosticar a aprendizagem é um ato de quem faz parceria com o educando, auxiliando-o a 
construir seu caminho, sua aprendizagem. Essa expressão é uma representação de social do 
nosso modo inconsciente e automático de confundir avaliação com exames. 
Vale a pena trazer à cena a expressão ´instrumentos de avaliação`, utilizada com o 
significado de testes, provas, redações, monografias etc. Esses instrumentos são os recursos 
utilizados para proceder à avaliação, ou seja:
 (1) modos de constatar e configurar a realidade; 
(2) critérios de qualidade a serem utilizados no processo de qualificação da realidade;
(3)procedimentos de comparação da realidade configurada com os critérios de qualificação 
preestabelecidos. Testes, provas, questionários, redação, argüição, entre outros, de fato são 
instrumentos de coleta de dados para subsidiar a constatação (ou configuração) da realidade, 
que, por sua vez, permitirá a sua qualificação, qualificação da realidade descrita, centro da 
atividade de avaliar. Com isso, queremos lembrar que, cotidianamente, confundimos 
instrumentos de coleta de dados com instrumentos de avaliação, o que dificulta ainda mais as 
tentativas de superação do equívoco de praticar exames e chamá-los de avaliação. As provas, 
que são os instrumentos dos exames, passaram, direta e imediatamente, a ser denominadas 
instrumentos de avaliação. Trata-se, no entanto, de uma inadequação que automaticamente 
repetimos. 
Importante salientar ainda o equívoco existente no uso dos conceitos de ´avaliação 
qualitativa` e ´avaliação quantitativa`. Avaliação, para ser constitutivamente avaliação, só 
pode ser qualitativa. O termo avaliar provém etimologicamente de dois outros termos latinos: 
prefixo a e verbo valere, que significa ´dar preço a`, ´dar valor a`; em síntese, atribuir A ´qualidade a`. Com isso, compreendo que toda avaliação é qualitativa: levado a sério o 
conceito, não existe avaliação quantitativa. 
A avaliação é sempre uma atribuição de qualidade a alguma coisa, experiência, 
situação, ação, vale dizer, o ato de avaliar incide sempre sobre alguma coisa que existe 
extensiva e quantitativamente. Para proceder a uma avaliação sobre atos humanos e, em 
especial, à aprendizagem, devemos considerar a contagem de freqüência e, a partir dela, 
emitimos nosso juízo de qualidade. Vejamos alguns exemplos: o fato de um aluno acertar 15 
questões, num teste de 20, significa tão somente que ele acertou 15, em vinte; a qualificação 
dessa quantidade só virá no momento em que atribuirmos a essa situação uma qualidade 
positiva ou negativa. O mesmo ocorre em situações nas quais o fenômeno a ser avaliado se 
configura por nossa afetividade. Vamos supor que um aluno tenha 100 (cem) oportunidades 
de manifestar sua criatividade; porém, se ele somente se manifestar criativo em cinco dessas 
cem oportunidades tanto eu quanto você, leitor, atribuiremos a ele uma qualidade ´de pouco 
criativo`. Se, em vez disso, ele for criativo em 95 vezes, todos nós atribuiremos a ele a 
qualidade de ´muito criativo`. Assim, a qualidade é atribuída sobre uma quantidade, sobre 
uma contagem de freqüências. 
Esses conceitos de avaliação quantitativa e avaliação qualitativa nasceram de uma 
distorção no entendimento dos dispositivos legais da Lei 5692/71, quando trata do tema da 
aferição do aproveitamento escolar, no qual se afirma que, em relação ao aproveitamento 
escolar, é preciso levar em conta predominantemente os aspectos qualitativos sobre os 
quantitativos. Numa compreensão distorcida, corrente em nosso meio escolar, entendeu-se 
qualitativo por afetivo e quantitativo por cognitivo. A lei, na verdade, dizia outra coisa: por 
qualitativo, entendia o aprofundamento seja da assimilação de uma informação, seja de uma 
habilidade, seja de um conjunto de procedimentos, ou elementos semelhantes. Digamos que o 
qualitativo seja a preciosidade do desenvolvimento. Então, pode-se dizer que todos os 
pianistas tocam piano, mas uns são melhores que os outros, pelo fato de apresentarem certa 
preciosidade na maneira de tocar seu instrumento. Aprender com qualidade é aprender com 
profundidade, com sutileza, com preciosidade um conjunto de informações, uma habilidade 
ou os mais variados procedimentos. Os preciosi, num campo de conhecimento qualquer, são 
os mais hábeis, os mais perfeitos nessa área. Dar mais atenção ao qualitativo que ao 
quantitativo não significa dar mais atenção ao afetivo que ao cognitivo, e sim estar atento ao 
aperfeiçoamento, ao aprofundamento da aprendizagem, seja no campo afetivo, seja no 
cognitivo, ou no psicomotor. 
Essa distorção é mais um elemento em que uma representação social distorce a 
compreensão crítica e adequada de determinada experiência. Acostumamo-nos a esse 
entendimento e não nos perguntamos mais sobre a adequada significação das coisas. Esse 
equívoco revela-se somente como mais um hábito do senso comum, uma representação social 
inconsciente no âmbito da temática da avaliação da aprendizagem. 
Creio que ainda poderia levantar um conjunto de outras questões teóricas ou práticas 
da avaliação da aprendizagem, reveladoras do quanto nós, educadores, agimos mais pelo 
padrão inconsciente do que por um ato consciente, o que quer dizer que, em nossa prática.

Este material foi obtido através do website de Cipriano Carlos Luckesi 

Website:www.luckesi.com.br / e-mail:contato@luckesi.com.br





Nenhum comentário:

Postar um comentário

Além de sua visita, quero saber sua opinião!